Me enganei completamente quando pensei que estar de volta à vida universitária acalmaria um pouco minha rotina. As coisas parecem estar muito mais agitadas com um expediente 2 horas mais curto e sem a pressão do vestibular do que achei que estariam.
Mas, um certo candidato à presidência da república, que felizmente teve uma votação pouco expressiva, me fez ficar enojada com os comentários proferidos em pleno debate político. Sendo assim, vim deixar toda minha perplexidade e indignação aqui.
"Órgão excretor não reproduz.", foi o argumento dado por Levy Fidelix à Luciana Genro, quando esta lhe perguntou sua opinião sobre a união homo afetiva. Vê-se claramente que esse senhor de bigodes não entende muito de biologia, uma vez que a urina e o suor também são excretas do corpo humano, o que significa que a pele e os dois órgãos aos quais ele se referia incluem-se como parte do sistema excretor.
Em momentos como esse é que somos capazes de ver o reflexo do preconceito que ainda está incrustado em grande parte das pessoas. O pior não está em ele ter dito isso, e sim nesse comentário ter feito sua página aumentar em mais de 400% o número de likes. O maior problema, como já disse Gilberto Maringoni, é a "mentalidade Levy Fidelix" ainda ser tão forte e presente em nossa sociedade.
As gerações mais recentes lutam por igualdade, para que o negro não sofra preconceito, os idosos sejam bem tratados, mulheres não se tornem objetos, crianças e animais não sofram maus tratos e tantas outras batalhas cujas bandeiras são hasteadas diariamente. Se fossem apenas os mais antigos, que passaram a vida acostumados e ensinados a condenar os diferentes, talvez eu até pudesse aceitar. O que eu não entendo é como ainda pode haver tanta gente com pensamentos tão retrógrados em pleno século XXI.
As pessoas querem respeito ao seu credo, sua cor, seu sexo e sua idade, mas não conseguem tolerar a opção sexual do próximo. Definem os homossexuais como "pouca vergonha", mas deixam seus filhos assistindo às cenas nada comportadas da novela das 9. Querem poder dizer livremente o que pensam, mas não aceitam ouvir uma opinião contrária.
Se você não gosta, ok. Continue casado com a sua esposa ou seu marido, mas é tão difícil permitir que o outro também seja feliz? É tão penoso aceitar uma decisão que não vai afetar em absolutamente nada a sua vida? Não, eu sinceramente acho que não.
Em poucos dias, teremos os olhos do mundo voltados para nosso país. Um dos maiores eventos de esporte será sediado nas terras tupiniquins, para o bem ou para o mal.
Concordo com grande parte da população que o Brasil está anos-luz de ter infraestrutura suficiente para realizar um evento de tamanho porte. Todos sabemos da enorme quantia de dinheiro que fora desviada utilizando as obras como cobertor, o que aconteceria independente do partido que estivesse no poder.
O que eu, sinceramente, tenho achado uma grande bobagem é todo esse rebuliço de "não vai ter copa". Obviamente sabemos que haverá. Se quiséssemos realmente ter evitado tudo isso, as manifestações deveriam ter acontecido em 2007, quando fora anunciada a sede de 2014. Mas naquela época, protestos não estavam na moda, não davam status de engajado, não te faziam cool.
A única coisa que nos resta no momento é aproveitar toda a atenção que estamos recebendo pra mostrar o quão suja a casa está, bradar nossa insatisfação com o sucateamento da saúde, educação e segurança. Essa é a hora de fazer Brasília se arrepender e se envergonhar do caos em que vivemos.
Não basta colocar mais uns caras armados nas ruas, trocar as placas do metrô e anunciar as estações em inglês. Pintar a parede de fora não acaba com as infiltrações e rachaduras de dentro; maquiagem disfarça, mas não conserta nada.
Não serei hipócrita, estou animada com a copa. Quem me conhece sabe que adoro futebol e que estou longe de fazer parte das torcedoras quadrienais. Mas também acho que precisávamos ter arrumado muito melhor a casa antes das visitas chegarem. Infelizmente, o jeitinho brasileiro guardou toda a bagunça no armário e varreu a sujeira para baixo do tapete, como é de costume.
Um grande grupo de adolescentes, provenientes da periferia, que se reúne em um shopping ou parque qualquer de São Paulo. Apedrejados por uns, glorificados por outros e popularmente conhecidos como "rolezinhos".
Muito se ouviu falar desses jovens nas últimas semanas, covardes atrocidades foram deliberadamente publicadas na mídia, um preconceito descarado se mostrou ainda incrustado em toda sociedade hipócrita e dissimulada em que estamos mergulhados.
Confesso que, com pouco conhecimento sobre o assunto, também tirei conclusões precipitadas. Os meios de comunicação em massa querem vender essa imagem de baderneiros meliantes que causam destruição e pânico por onde passam.
O problema não é errar, assim como eu mesma fiz, mas fincar um julgamento acusatório e condenante sem nem ao menos tentar colher informações menos sensacionalistas sobre os fatos. As pessoas os rotularam de bandidos, destruidores, deliquentes e todos os adjetivos pejorativos possíveis; os sentenciaram com base em qualquer notícia vista no cidade alerta; os insultaram após lerem matérias que são feitas e distorcidas com o único intuito de vender mais um exemplar.
Poucos se deram ao trabalho de averiguar se não se tratam apenas de pessoas querendo aproveita sua juventude ou se realmente são ladrões com o objetivo de roubar e usar a violência. É muito mais fácil continuar no conforto da bolha de preconceito que nos rodeia.
Não estou santificando nem demonizando ninguém. Provavelmente houve depredação e furtos como estão noticiando, assim como existiram nas passeatas pelos 0,20 centavos, nas comemorações de títulos de um campeonato de futebol ou em qualquer outro evento que aglomere uma grande quantidade de gente. Mas esses outros acontecimentos são esquecidos ou tratados com a normalidade de algo rotineiro, não proíbem passeatas, nem comemorações, nem recém universitários comemorando seu ingresso na faculdade em plena praça de alimentação. Mas impedem a entrada de meninos e meninas a um shopping center, usando a maior política segregacionista que poderia haver. Barram, desprezam e enxotam, como se expulsa um rato sujo que veio do esgoto, como se livra de algo supostamente desqualificado para estar lá.
Gostaria de saber desde quando não ter dinheiro é sinal de mau caratismo, em quê influencia morar em uma casa apertada e sem luxo, por quê passear tornou-se um hobby exclusivo da elite.
Se pobreza fosse sinônimo de desonestidade, o congresso brasileiro teria a maior concentração de honradez do mundo.